Denúncias em gelaterias alemãs reabrem êxodo catarinense de 2002
Reportagem alemã expõe jornadas abusivas de brasileiros em sorveterias e reacende debate sobre êxodo catarinense já registrado pela Insieme há 24 anos.

Uma reportagem publicada na Alemanha sobre condições de trabalho em gelaterias artesanais reacendeu, nas últimas semanas, um debate que a comunidade ítalo-brasileira do Sul de Santa Catarina conhece bem. Denúncias de jornadas excessivas e pagamentos incompatíveis com as horas trabalhadas, envolvendo majoritariamente brasileiros descendentes de italianos de Urussanga e região, repercutiram na imprensa europeia — mas o fenômeno migratório por trás dessas histórias já era documentado pela revista Insieme desde 2002.
O que revela a reportagem alemã
A Süddeutsche Zeitung Magazin publicou, em 20 de agosto, uma extensa reportagem sobre as condições de trabalho de brasileiros em sorveterias artesanais na Alemanha. Segundo o texto, trabalhadores relataram jornadas de 12 a 14 horas diárias, semanas que chegam a somar até 80 horas de trabalho e apenas um dia de folga, com remunerações descritas como incompatíveis com o volume de horas cumpridas.
Um dos entrevistados pela publicação alemã afirmou se sentir "tratado como escravo" — uma declaração pessoal do trabalhador, e não uma conclusão jurídica ou classificação formal atribuída pela reportagem. A maior parte dos relatos citados envolve brasileiros oriundos de Urussanga, no Sul catarinense, região historicamente ligada à migração para o setor de gelaterie na Europa.
Na sequência, a Rai News ampliou a repercussão do caso em matéria publicada em 24 de agosto, com manchete que mencionava "milhares de brasileiros" nessa situação. No entanto, o texto original da Süddeutsche Zeitung Magazin fala em "alguns" relatos de irregularidades, não em um número generalizado de milhares de casos — uma distinção importante entre a reportagem-fonte e a forma como foi repercutida.
A raiz do fenômeno: Insieme já denunciava em 2002
O que a reportagem alemã trouxe à tona em 2026 não é, de fato, novidade para quem acompanha a comunidade ítalo-brasileira do Sul de Santa Catarina. De acordo com a Insieme, a edição de número 41, publicada em maio de 2002, já trazia como matéria de capa o êxodo de jovens de municípios como Urussanga, Siderópolis, Cocal do Sul e Criciúma rumo à Europa.
Um editorial da mesma edição, intitulado "Estancar o êxodo", registrava que muitos dos pedidos de reconhecimento de cidadania italiana partiam de candidatos que, pouco tempo depois de obter o passaporte, terminavam trabalhando como sorveteiros na Alemanha. A estimativa da época, segundo a Insieme, apontava que a saída de trabalhadores da região poderia chegar a atingir até 20% da população economicamente ativa local — um dado que evidencia a dimensão do fenômeno migratório já há mais de duas décadas.
O papel da cidadania italiana no fluxo migratório
A Insieme relata que, ainda em 2002, o então cônsul Mario Trampetti viajou a Nova Veneza, Criciúma e Urussanga para tratar diretamente do tema com lideranças locais. Na ocasião, ele pediu que empresários da província de Belluno, na Itália, recontratassem trabalhadores que já possuíam o passaporte italiano, numa tentativa de reorganizar o fluxo migratório que se formava.
Anos depois, em 2005 e 2007, o mesmo cônsul voltou a se manifestar sobre o assunto, chamando o reconhecimento de cidadania de "instrumento de emigração" — uma expressão que, segundo a Insieme, ligava diretamente a obtenção da documentação italiana às saídas de brasileiros para a Alemanha, os Estados Unidos e a Inglaterra em busca de trabalho. O relato do cônsul reforça que a cidadania, historicamente, funcionou não apenas como reconhecimento de uma origem familiar, mas também como porta de entrada para o mercado de trabalho europeu.
De empregados a empresários: a evolução da comunidade
O fluxo que começou como êxodo de trabalhadores em busca de oportunidades passou por transformações relevantes ao longo das duas últimas décadas. Em outubro de 2024, uma reportagem da Insieme estimou que mais de 2 mil ítalo-brasileiros do Sul catarinense atuavam em gelaterie na Alemanha e em outros países europeus.
Parte significativa desses trabalhadores é descendente de imigrantes zoldanos — naturais do Val di Zoldo, na província de Belluno — que emigraram para Santa Catarina há mais de um século e hoje, em movimento inverso, retornam à Europa. Segundo a Insieme, muitos desses profissionais deixaram de ser apenas empregados e se tornaram proprietários de suas próprias sorveterias, consolidando uma trajetória empresarial dentro do setor que décadas atrás os recebeu como mão de obra sazonal.
Esse ciclo — de imigração italiana para o Brasil, reconhecimento de cidadania e posterior emigração de descendentes de volta à Europa — segue sendo acompanhado de perto por quem cobre notícias da Itália e os desdobramentos da vida de brasileiros no continente europeu. Para quem pretende compreender melhor os trâmites e a documentação necessária, informações sobre cidadania italiana e sobre a vida na Itália ajudam a contextualizar por que tantas famílias catarinenses seguiram esse caminho.
As denúncias atuais publicadas na Alemanha, portanto, não descrevem um fenômeno novo, mas reabrem um capítulo de uma história migratória documentada há mais de duas décadas — um percurso que atravessou gerações, desde o pedido de reconhecimento da cidadania italiana até a consolidação de uma comunidade de trabalhadores e empresários brasileiros no setor de sorvetes artesanais europeu.
Quer saber se você tem direito à cidadania italiana? Fale com uma assessoria especializada em cidadania italiana ou conheça os serviços de busca de certidões na Itália.
Fonte: Insieme





